"Velha Macieira de Cambra, sempre jovem"
Publicado: Sexta-feira, 1 Julho, 2005
(...) Depois, é a estrada de Rôge. A princípio, entre pequenas, modestas quintas logo entre pinheiros e carvalhos, por fim ladeando, a meio da encosta, o Vale do Caima. O vale é o trofeu da estrada, sinuoso com as suas caprichosas saliências e seus desvãos, seus verdes pendores, suas brancas casitas dispersas, seus soberbos contrafortes montanhosos, os olhos deslumbrados jamais se fadigam de vaguear do todo para os pormenores, para os milhentos pormenores de beleza que o seu colo acidentado nos brinda. E se porventura uma esfarrapada névoa veio de longe, do mar vareiro, pairar ali, tem-se a ilusão - inesquecível ilusão - de que o Vale do Caima é um dos fantásticos palácios onde a quimera dá recepções.
A estrada onde se abrange a maravilha, nada tem, em si própria, de extraordinário, nada das estradas famosas. E, contudo, quando um dia sentirmos aproximar-se a nossa morte, esta velha estrada há-de incluir-se entre aquelas outras que nos darão pena, muita pena, de não podermos voltar a trilhá-las. Ela possui um encanto geográfico, uma doçura campestre inexprimível, que se mantém sempre, sempre, através das sucessivas paisagens que nos vai revelando.
Aqui, antes de descer para Rôge, ela forma como que uma sacada sobre o Vale. Mas já não é o Vale que ela parece querer ofertar-nos e sim o próprio mundo sideral. E por isso, numa noite constelada, a crismamos de " varanda do céu ". Dir-se-á que podemos falar com as estrelas, que podemos, se estendermos os braços, colher a mãos cheias as jóias celestes, esses frutos de luz e de oiro que estão longe e são tão grandes e parecem estar pertinho e serem pequeninos.
Em Rôge, à obra lírica da natureza ligam-se as obras de arte do homem- o cruzeiro garboso e célebre, a igreja de fachada esculturada, num adro que é outro terraço sobre o romântico Vale do Caima.
O rio murmura perto dali. E seja nas suas margens, seja nas dos ribeiros seus afluentes, relvados e edénicos recantos se abrem ao nosso passo sob as frondes de amieiros e de outras árvores que se foram avizinhando da água, para no seu espelho azul se mirarem garridamente. O rio murmura, o rio canta também uma canção suavíssima, que parece vir da noite de todos os séculos para as auroras de todos os dias. Da outra banda as montanhas vão subindo, em sua majestade, para o céu, verdes até meia encosta, pardas na sua imponência dali ara cima, dali até á Freicha da Mizarela, esboçada na lonjura, até às lombas mais altaneiras, onde lares humanos substituem os lares das águias. E de lá se vê o mar para um sonho errante e se vê a terra numa infinidade multiplicidade de aspectos- a vida numa infinda multiplicidade de sensações.

